Análise: AmarElo, de Emicida. Um recontar a história

Inicio deixando claro que não curto as músicas de Emicida, rapper, cantor e compositor paulistano. Muito menos a sua postura e as pautas de lacração, mas fui surpreendido positivamente pelo documentário disponível na Netflix: AmarElo – É Tudo Pra Ontem. O filme retrata o show do cantor no Theatro Municipal de São Paulo, um desdobramento do CD de 2019, e que virou um marco em sua história pessoal e que embala o roteiro.

 

A música título do documentário quer trazer uma mensagem de esperança. Para isto, usa o refrão da música de Belchior, Sujeito de Sorte: “Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro. Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”, uma canção que fala sobre não aceitar a derrota, mas lutar contra ela.

Conversando antes com alguns amigos, refletíamos que a história desta megalópole foi erguida por muitas mãos, mas que desprezamos: negros, nordestinos, imigrantes, pessoas que muitas vezes não tem hoje o acesso a estes mesmos espaços. Lembra a antiga canção de Zé Geraldo, Cidadão: “Tá vendo aquele edifício moço? Ajudei a levantar. Foi um tempo de aflição, eram quatro condução: duas pra ir, duas pra voltar. Hoje depois dele pronto olho pra cima e fico tonto, mas me chega um cidadão e me diz desconfiado, tu tá aí admirado ou tá querendo roubar?”

 

Triste realidade de nossa cidade, país e mundo! Emicida reconta a história de SP e do Brasil enfatizando os personagens negros. Antes mesmo da nova onda de discussão erguida pelo movimento Vidas Negras Importam, após o assassinato de George Floyd, as canções do disco trazem a memória de Tebas, Zumbi dos Palmares, Luís Gama, Machado de Assis, Pixinguinha, Os Originais do Samba – banda do famoso trapalhão Mussum. Origens que sequer damos a devida atenção, muitas vezes até a transformamos como nossa história.

A montage blend of African American faces close up, both men and women with different shades and colors in skin tone. Melanin beauty.

 

A escolha do Theatro Municipal relembra a luta do Movimento Negro Unificado, que em 1978 fez seu ato inaugural, justamente nas mesmas escadarias. Hoje, as pautas atuais do racismo estrutural são gritantes, marcam o que é realmente o século XXI e não adianta dizer que não existe. Os casos de racismo não estão aparecendo mais hoje em dia, é que agora eles são filmados e rodam o mundo através de redes sociais e a mídia e mostram o quão asqueroso é o ser humano, infelizmente.

 

Mesmo com toda a crítica ao cantor, que infelizmente agitou as redes sociais, mas não foi às manifestações antirracismo, ou este seu documentário é para ser aplaudido.

AMARELO – É TUDO PRA ONTEM

Data de Lançamento: 08/12/2020

Plataforma: Netflix

Nota: 9/10

Análise: AmarElo, de Emicida. Um recontar a história

Wagner Botelho
Sobre o autor
- é formado em filosofia (sim, isso mesmo! rs) e pedagogia, divide sua paixão entre as séries, filmes, games e família. Estudioso sobre as religiões e as juventudes, gosta de conversar, interpretar e (re)significar a religiosidade em suas diferentes manifestações, linguagens e paisagens presentes nas culturas e nas sociedades.