Análise: Dois Papas

10/01/2020 21:33
   

Um olhar sobre “Dois Papas”, de Fernando Meirelles.

 

Fazia tempo que um filme religioso não causava tanto burburinho. Imagino que o combustível das discussões e posicionamentos políticos no Brasil e no mundo tenham gerado faíscas e inflamado! rs

Gostei sim do filme e mesmo sendo católico praticante assisti sem esperar uma descrição fiel à história e defendendo a Igreja. Não entendo como os fiéis reclamam destes “erros” da trama, o que esperavam? Uma biografia autorizada dos Papas? rs

A indústria cinematográfica precisa de apelo comercial para chamar a atenção e vender, e desta vez utilizou como ponte as figuras dos líderes religiosos do Vaticano. E fizeram isso, na minha humilde opinião, sem apelar. Pelo contrário, de forma muito inteligente utilizaram recortes dos discursos e escritos dos próprios personagens, simulando uma conversa entre os dois que até existiu, só que após a eleição e que nunca saberemos o real teor.

É clara que a personalidade de Francisco cativa mais o diretor, e que ele deu pitadas generosas de antipatia ao Bento. Mas é o ponto de vista dele, não o meu ou o seu, nem quis dizer que isto é a verdade.

O filme inclusive começa citando: “inspirada em fatos reais”. Inspirada, não totalmente. E ponto. Se até Mel Gibson teve críticas, imagine! kkk Não conheço a história de Fernando Meirelles, mas parece um religioso não praticante transmitindo como o “mundo” enxerga a Igreja. Já existem diversas matérias religiosas tratando o que possivelmente é verdade ou ficção.

 

Não imagino que a obra contenha muitas verdades, até porque os conclaves poucos vazam informações, mesmo nesta era tecnológica! Nem imagino o alemão Joseph Ratzinger fazendo boca de urna ou depois passando o bastão ao argentino Jorge Bergoglio, e isso não é condenar ou manchar o papado de Bento XVI, mas são tipos, formações, pensamentos, pontos de vistas diferentes, que a trama trata inclusive como posicionamentos em uma discussão e não um debate ou bate boca, tendo cada um sua verdade absoluta querendo mudar o outro.

Não sei se esta era a intenção do filme, mas vi ali uma bela narrativa sobre a humanidade de dois homens, seres humanos, religiosos e chefes/gestores da igreja, bem como o peso deste trabalho. Religioso assiste sim futebol, tocam cravo e piano, tomam cerveja (poderiam ter colocado no lugar da Fanta! rs), assistem TV, comem pizza… e isto não o fazem menos religiosos que os moralistas de plantão que estão saindo do armário.

 

Só um pesar: o filme chega ao final um pouco arrastado, parece que tentaram preencher o tempo.
E um exaltar: Anthony Hopkins e Jonathan Pryce fazem uma atuação brilhante, o segundo então parece muito fisicamente com Francisco.

Netflix se supera e mesmo no topo demonstra personalidade e audácia no ramo dos streamings. Investimento pesado em uma boa trama, atores e diretor famosos. Não baixa a guarda, mesmo ganhando.

 

Dois Papas

Lançamento: Dezembro 2019

Emissora: Netflix

Elenco: Anthony Hopkins/ Jonathan Pryce

Nota: 9.5/10

Wagner Botelho
Sobre o autor
- é formado em filosofia (sim, isso mesmo! rs), divide sua paixão entre as séries, filmes, games e família. Estudioso sobre as religiões e as juventudes, gosta de conversar, interpretar e (re)significar a religiosidade em suas diferentes manifestações, linguagens e paisagens presentes nas culturas e nas sociedades.