Análise: Hernán

Analisado por Wagner Botelho e Fábio Silvestrini

 

Hernán Cortes e a luta pela colonização dos streamings

 

A luta pelo crescente público das plataformas de streaming é épica! Já comentamos aqui várias séries e filmes da Netflix, somam-se a Apple TV+ trazendo See, com o gigante Jason Momoa (em breve sai uma resenha aqui no Kapoow!), agora ganhamos a força de um colonizador: Hernán Cortes (1485 – 1547). Esta nova série, considerada pelos críticos como uma das produções mais ambiciosas da América Latina até hoje, é exclusiva da Prime Video (Amazon), mas estreou no final de março também no canal History Channel, apesar da pouca divulgação.

 

Não encontramos resenhas sobre esta série (até o momento), talvez o Kapoow seja uma das primeiras a fazê-la! Wagner e Fábio, aficionados por história, assistiram a primeira temporada e aqui escrevem.

 

Em primeiro lugar, trata-se de uma série a peso de ouro, com investimento e elenco de ponta, narrando com um olhar diferente a polêmica Conquista do México, até hoje ponto de discussão entre latinos e europeus. Esta primeira temporada tem oito episódios, da chegada à costa de Yucatán, em 1519, até a derrocada da mítica cidade de Tenochtitlan. Cada qual contado por um dos personagens que conheceu intimamente o conquistador espanhol: Marina (uma indígena da etnia Nahua que é descoberta como uma preciosa tradutora da língua asteca, maia e o espanhol); Olid (capitão do grupo de Cortes, interpretado por Víctor Clavijo, da excelente série El Ministerio del Tiempo, assim como Aura Garrido, que aqui vive sua esposa); Xicotencatl (príncipe guerreiro do povo Tlaxcala, interpretado por Jorge Antonio Guerrero, do filme Roma, vencedor do Oscar); Bernal (primo de Hernán); Montezuma (o famoso líder religioso de Tenochtitlan); Alvarado (interpretado pelo cantor e ator argentino Michel Brown) e Sandoval (membros de sua equipe); Hernán (interpretado pelo famoso e talentoso ator espanhol Óscar Jaenada, de Piratas do Caribe e Rambo até o fim).

 

Percebe-se o esforço em humanizar o personagem histórico, que até hoje é questionado como conseguiu conquistar um império de guerreiros no auge de sua glória com algumas centenas de soldados. Cortes é motivo de grandes discussões e polêmicas até hoje, criando desacordos entre ambos os países envolvidos na conquista.  A narrativa da série não segue a linha histórica, mas vai e vem sob o olhar dos personagens centrais. Isto é um diferencial somado à riqueza de detalhes das vestimentas, adereços, cenários. Parece mesmo que voltamos no tempo. Os nativos são perfeitos fisicamente e ainda falam as línguas das tribos daquela época com perfeição, isso supera de longe os enlatados americanos! Para português só há opção de legenda. E esse é o maior diferencial de Hernán, recomendamos assistir no idioma original, a imersão é 100%! Uma pena que o History Channel não deu a opção para quem assistiu pelo canal, que só disponibilizou dublado, uma atrocidade!

 

Logo com o primeiro episódio percebemos como os personagens e o contexto ajudaram o conquistador. Marina (Malintzin ou Malinche) torna-se guia, amante e confidente de Cortes, descobrindo informações sobre a luta entre si das diferentes tribos, e levando à aliança com o povo Totonac, que estava submetido aos astecas e era obrigado a pagar altíssimos impostos para o imperador. A personagem é tão importante quanto o conquistador, tanto na trama quanto na vida real, pois além de falar 4 idiomas, até hoje é motivo de polêmica no México por ter ou não traído seu povo.

 

Ao chegarem até o líder da capital, o religioso Moctezuma (historicamente Montezuma II, sobrinho do I), que crê em sinais de que o estranho europeu é a encarnação do deus Quezalcoatl. O esperto colonizador se aproveita disso para ordenar a suspensão dos sacrifícios humanos e até o batiza na fé cristã, declarando-se um súdito do rei Carlos I de Espanha. O repúdio dos conquistadores aos sacrifícios é mostrado em seu contraste na série, quando nos deparamos com o período vivido pelos espanhóis em sua terra natal, A Inquisição.

 

Outro ponto alto é o Massacre de Cholula, resultado de um suposto desentendimento entre astecas e espanhóis nessa cidade, culminando em um banho de sangue no templo religioso da cidade.

 

A temporada termina com La Noche Triste (A Noite Triste), narrando a fuga forçada dos espanhóis. aniquilando metade da força de Cortés. A segunda temporada provavelmente irá retomar os preparativos de Cortes para reagrupar as forças e conquistar Tenochtitlán, varrida pela varíola espanhola.

 

Hernán é mais uma grata surpresa em termos de série “não estadunidense”, na linha de La Casa de Papel, Dark e El Ministério del Tiempo, mostra um potencial até superior a vários títulos oriundos das terras do Tio Sam, pela riqueza de detalhes que retrata a época de forma bela e minuciosa, com idioma nativo original, trilha sonora marcante e grandes atuações, com destaque para Jaenada!

 

Para quem gosta de história, é um prato cheio. Que venha logo a 2ª temporada!

 

Hernán

ANO:2020 / PAÍS:Espanha e México
DIREÇÃO: Alvaro Ron, Julián de Tavira, Norberto López Amado
ELENCO: Óscar Jaenada, Aura Garrido, Michel Brown, Víctor Clavijo, Jorge Antonio Guerrero
Nota: 10/10

 

Análise: Hernán

Wagner Botelho
Sobre o autor
- é formado em filosofia (sim, isso mesmo! rs), divide sua paixão entre as séries, filmes, games e família. Estudioso sobre as religiões e as juventudes, gosta de conversar, interpretar e (re)significar a religiosidade em suas diferentes manifestações, linguagens e paisagens presentes nas culturas e nas sociedades.