Análise: The Queen’s Gambit – O “gambito” inteligentíssimo, digno da rainha!

A tempos eu não assistia uma série/minissérie tão inteligente e cativante. Primeiro pela fórmula: apenas 7 episódios de 46 a 69 minutos baseados no romance de Walter Tevis, publicado em 1983 com o mesmo nome. “É um mundo inteiro em apenas 64 casas”, e realmente é.

 

Não sou um exímio xadrezista, male má sei mexer as peças corretamente. Pesquisando, descobri que The Queen’s Gambit é o nome de uma jogada tradicional do xadrez que ocorre logo no início da partida. Existem vários tipos de gambit, que seriam uma boa e velha “gambiarra”, uma estratégia para enganar o adversário e demonstrar de cara o estilo e a personalidade do jogador. Trata-se de uma abertura que sacrifica a peça peão com a esperança de se alcançar algum benefício no jogo. Graças a mais uma bela caca na tradução tupiniquim, gambito ou cambito em algumas regiões do país significam pernas finas, piada pronta!

Mas o gambit da trama é muito maior, mostra a atriz Anya Taylor-Joy (nada parecida com a Casey Cooke de “Fragmentado” e “Vidro”, ou a Gina Gray em “Peaky Blinders”) como a protagonista, Beth Harmon, que na fala de sua mãe resume toda a história: “Os homens vão aparecer querendo te ensinar coisas, mas não quer dizer que sejam mais inteligentes, só tem que deixar eles falarem, depois você vai lá e faz o que você quiser”.

Sim, esta é mais uma série bem feminista, talvez até ficção demais para a década de 1950 em que se passa, mas não tira o seu brilho.

Senhoras e senhores, segundo dados de dezembro pela Netflix, é a minissérie mais vista na história da plataforma. Já no primeiro mês de divulgação 62 milhões de usuários assistiram a série. Alcançou o primeiro lugar do ranking de minisséries de ficção mais vistas da plataforma em nada menos que 63 países e top 10 em 92 países. De acordo com dados publicados pela empresa Decode, a procura por jogadas de xadrez aumentou 150% e a busca por jogos de xadrez online também cresceu após a estreia da produção. O livro que inspirou a série, está na lista de mais vendidos do New York Times 37 anos depois de seu lançamento!

 

Mas é tudo isto mesmo?

Sim, é tudo isto e um pouco mais. Na minha humilde opinião masculina, por tratar de aspectos psicológicos na construção da personagem principal, cada expectador tem uma análise ou percebe vários easter eggs. Genial!

 

Vamos à história (cuidado, spoilers):

Conhecemos a vida de Elizabeth Harmon através de vários flashbacks, presente em praticamente todos os episódios. Após perder sua mãe Alice (Chloe Pirrie) em um trágico acidente (ou tentativa de suicídio?), a pequena garota é enviada a um orfanato no estado americano do Kentucky. Típicas cenas do cinema com o rigor religioso, a rebeldia juvenil e a surpreendente dopagem das crianças por meio de tranquilizantes, comuns no período.

Sua amiga Jolene (Moses Ingram), uma das internas mais velhas, ensina a primeira estratégia: guardar a pílula para tomar a noite e “aproveitar” o efeito colateral para ter um bom sono. No porão do orfanato ela descobre o discreto zelador Sr. Shaibel (Bill Camp, o Detetive Garrity de “Coringa”) que passa seu tempo livre jogando xadrez. Com ele aprende lições que levará para sua vida, tal qual os dois lados da mesma moeda: existe o dom, e existe o preço dele. Através dos treinos e dos medicamentos desenvolve um talento incrível para o jogo e a dependência do tranquilizante. Um trecho engraçado e trágico é quando ela decide roubar a medicação da enfermaria. Tamanha abstinência a fez engolir várias capsulas e ter um mal súbito em frente a toda turma, professoras e irmãs, espatifando o enorme pote com o medicamento.

Tempo se passa e Beth ganha uma família adotiva, aos poucos descobre que, assim como ela, é uma família com muitos defeitos e virtudes. Sua madrasta Alma Wheatley (Mariele Heller) reforça os ensinamentos de sua mãe para a autossuficiência, em contraponto da paternidade ausente de seu pai e de seu padrasto. Na escola inicia os primeiros torneios de xadrez, chamando a atenção de todos. A menina prodígio cresce e embarca numa maratona meteórica de viagens para representação estadual, nacional e até internacional, quando conhece o campeão mundial russo, Vasily Borgov (Marcin Dorocinski). A primeira partida é traumática, o gambit do intimidador a faz pensar seriamente na carreira pela primeira vez.

Após perder sua mãe adotiva e companheira de forma repentina, se perde entre amores, experiências sexuais, manutenção do vício pelos tranquilizantes e turbinando com o gosto pelas bebidas alcoólicas, constrói sua explosiva personalidade. Acha que precisa da mente turva para vencer, e para isto se esconde atrás de pílulas e copos. Em Paris encontra Borgov para uma revanche, mas graças a noite anterior alucinógena não consegue a concentração necessária para vencer seu grande adversário.

Reencontra antigos adversários e admiradores e aprende com os russos a não querer resolver tudo sozinha, pois os americanos cultivavam um egoísmo e por isto eram sempre superados pelos soviéticos. Ajudam nesta missão Harry Beltik (Harry Melling, o Duda Dursley de “Harry Potter”), Benny (Thomas Brodie-Sangster, Jojen Reed de “Game Of Thrones” e Newt, de “Maze Runner: Correr ou Morrer”) e D. L. Townes (Jacob Fortune-Lloyd).

 

O final da série consegue ainda surpreender os expectadores. Beth batalha para juntar dinheiro e participar do torneio internacional em solo soviético. Jogo a jogo ela se supera como atleta e como mulher, superando também os seus vícios para mostrar ainda mais todo o seu talento, derrotando Borgov como em um duelo final e cheio de suspense.

Após a vitória gloriosa ela aparece em um táxi na cidade russa com uma veste que lembra a peça rainha, pede para descer em uma praça pública onde diversos idosos jogam xadrez e é ovacionada. Aceita o convite para uma partida de um senhor que lembra o zelador Shaibel. Minha interpretação é que ela passou por uma metamorfose para se tornar a principal do tabuleiro de sua vida.

“O Gambito da Rainha” trata o xadrez com devoção e amor. Mostra uma protagonista extremamente humana: cheia de virtudes e defeitos, gênio e louca.

Será que haverá continuidade? Provavelmente não (e eu torço por séries que terminam assim no alto, ok La Casa de Papel?), uma vez a minissérie tratou de todo conteúdo do livro. Contudo, entretanto, todavia… no mercado do lucro, vai saber se não criam algo?

 

Apenas uma crítica pessoal: não gosto muito da forma como o cinema americano continua a tratar o “nós x eles”. EUA x Rússia, o bom capitalismo versus ao frio e sombrio capitalismo. Ainda lembra os super heróis bonzões Capitão América e Super Man. A Guerra Fria ainda persiste no imaginário do Tio Sam.

 

E qual a sua impressão sobre esta série? Escreva-nos!

 

O GAMBITO DA RAINHA

Estrelando: Anya Taylor-Joy, Bill Camp, Marielle Heller

Criação: Scott Frank, Allan Scott

Ano de lançamento: 2020

Nota: 9,7/10

Plataforma: Netflix

Análise: The Queen’s Gambit – O “gambito” inteligentíssimo, digno da rainha!

Wagner Botelho
Sobre o autor
- é formado em filosofia (sim, isso mesmo! rs) e pedagogia, divide sua paixão entre as séries, filmes, games e família. Estudioso sobre as religiões e as juventudes, gosta de conversar, interpretar e (re)significar a religiosidade em suas diferentes manifestações, linguagens e paisagens presentes nas culturas e nas sociedades.